Toca do Calotas

Ainda não fui completamente desnuclearizado

Começo já dizendo que ainda estou em conflito de posições sobre essa questão. Passei uns 4 anos da minha vida num partido comunista e, além do mais, sou físico de formação; então tenho certos... viéses...

Porém, esses dias eu vi uma notícia que me fez refletir um pouco não apenas sobre energia, como também armas nucleares. Com o conflito no Irã, a França anunciou1 um aumento e modernização das suas ogivas nucleares, e Macron ainda disse:

Quem quer ser livre, deve ser temido. Quem quer ser temido, deve ser forte.

Assim, é inegável e há evidências de que conflitos entre nações que possuem armas nucleares são evitados ou contidos. Mas não sei se esse equilíbrio é um mínimo local ou um máximo; em ambos, a derivada é zero; mas somente um deles é estável. Um equilíbrio instável é perigoso, qualquer mínima desgraça, mínima perturbação pode nos jogar pra fora da curva e cair num movimento completamente caótico.

Sei que a gente realmente costuma seguir a vida atravessando estradas com "ele não é doido, ele tá me vendo". Mas as vezes o chefe de Estado é doido, e sim, ele está lhe vendo pela câmera do drone. Esse equilíbrio, e pacto de não-agressão advém de uma confiança de que a outra nação não é maluca o suficiente para iniciar um conflito nuclear pois desde criancinha aprendemos que isso acabará com o mundo. Mas ainda acho que se o número de nações nucleares se multiplica, a detonação se torna apenas uma questão de tempo.

Confiança na política é algo muito tênue, principalmente quando é uma confiança moral. Discorde ou não da política iraniana, mas, na minha opinião, nada (!) justifica tacar uma bomba em uma escola em que meninas estavam estudando. O conflito Israel e Palestina foi atenuado esses últimos meses mas não esqueçamos dos ataques à civis e correlações ainda incomprováveis de prédios públicos com as organizações alvo cometidos por Israel. Não esqueçamos que os EUA simplesmente entraram na Venezuela e sequestraram o chefe de Estado. Você ainda confiaria na moral política desses caras?

Acho essa fala do Macron equivocada. Para ser livre você não deve ser temido; acredito que para ser livre você precisa se proteger da intervenção externa e isso não necessariamente leva ao belicismo da nação. Existem meios, eficazes e coerentes que também atingem esse objetivo. Essa fala também é perigosa pois incentiva outras nações à quebrarem o pacto pena não proliferação de armas nucleares, e, assim... isso exige que todos os atores envolvidos sejam racionais. Mas essa racionalidade, essa confiança, resiste no medo? no desespero? no fanatismo? no fascismo?

E sim, eu sei, que o comunista cosplay bolchevique vai dizer.

"Mas não é pra usar, é pra ter!"

Assim como qualquer argumento armamentista, todo mundo diz que é pra se defender, não para atacar. Acontece que não é assim que vemos armas serem usadas por aí né? Até mesmo os supostos treinados para, são os primeiros a "confundirem" celulares com armas e matam a primeira pessoa preta que vê.

Na minha cabeça, basta um maluco lançar um míssil, mesmo que pequeno, ou aqueles de submarino, nuclear, pra começar a desgraça. Eu particularmente não me sustentaria em uma confiança moral.

Se todo mundo começar a ter essa desgraça agora, o que impede o ataque?

Se é para ir pela moralidade, que moral tem países que impõe sua soberania na ameaça ao genocídio alheio?

Ta todo mundo querendo trocar a diplomacia por um botão. E não precisa ser doutor em estatísticas para dizer que isso aumenta a probabilidade de uma merda acontecer.

Eu sei, pode me chamar de idealista. Mas eu sei os perigos de um inverno nuclear e eu admito e não escondo: eu tenho medo.

E a soberania?

Mas meu ponto aqui e meu objetivo nesse minitexto é dizer que a soberania nacional não é somente... militar? Acho que militar não é uma boa palavra; digo melhor: bélica.

O custo na fabricação e manutenção em armas nucleares são exorbitantes e, um país como o nosso de terceiro mundo que tem um bolo pequeno, acho que tem outras prioridades. E acredito que essas prioridades também fazem parte de uma "composição" da soberania.

Para além da seguridade social, a soberania tech para mim é fundamental. Quebra de patentes e "saber-como", principalmente de medicamentos, é algo que nos ajudaria a sair do mapa da fome de produção interna. Claro, isso exige um conflito com a burguesia nacional completamente agroexportadora, e tem que ter culhão para comprar essa briga com o fazendão crente que é nosso país.

O famoso termo celeiro do mundo nos cai muito bem. Ai de quem ousar querer desenvolvimento científico tecnológico nesse país. Gente, no sério, vocês nunca notaram que uns remédios são simplesmente fármacos, são moléculas? E alguns são moléculas SIMPLES, pequenas e fáceis de sintetizar, e a gente não faz; dependemos de laboratórios lá na pqp do mundo pra importar.

Além do setor de remédios, ao setor de software também acho que deveria ser uma das prioridades. Hoje a gente tá completamente dependente da Microsoft, Google e etc.; inclusive para softwares de gestão de dados sensíveis da nação. Além da produção de softwares seguros, no mundo de hoje com certeza um treinamento de contraespionagem cibernética é requisito.

E isso não se resolve com urânio.

Mas também exige recursos financeiros, bem como RH, com formação e incentivo. Mas é aquilo: prioridades.

Ainda não fui desnuclearizado

Ainda acho que, realmente, a inércia de conflito entre nações nucleares maior; ainda não fui completamente convencido do contrário. Mas não quer dizer que eu concorde com a proliferação de armas nucleares ou que o Brasil deva ter uma. Muito pelo contrário.

Sou um grande entusiasta, porém, da energia nuclear; não como substituinte, mas como mais uma forma de produção de energia "limpa" (meio que não existe isso) a participar da rede de produção de energia nacional; o que por sinal também faz parte da soberania.

Por essas razões não sou a favor da completa proibição do estudo de materiais radioativos. Mas sou medroso e temo o futuro famélico de um inverno nuclear.


Notas de rodapé

  1. https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/03/02/franca-anuncia-aumento-de-arsenal-nuclear-para-proteger-europa-em-meio-a-guerras-na-ucrania-e-no-ira.ghtml