Toca do Calotas

Estresse e embaçamento das pequenas coisas

Então, estou com uns problemas na minha vida de pesquisa; e tal qual um tripé, basta um âmbito da minha vida ameaçar falhar eu já acho que é o fim do mundo. Como vocês (mutuals do masto) sabem, estou em processo de defender meu mestrado em um trabalho que passou por duas formulações, sendo a última uma mudança completa de área na ciências de materiais (polímeros -> cerâmicos); faltando menos de 10 meses para realizar todo o projeto.

Antes acostumado com soluções poliméricas, técnicas de deposição de solução e caracterização ótica, agora tenho que lidar com conhecimentos de vácuo, sputtering, materiais duros e caracterização elétrica. Coisa que nunca fiz na minha vida e que exigia tempo para dominar a técnica e a teoria por trás. E desde o começo expressei meus sentimentos quanto a fazer isso tudo em 10 meses.

Meu orientador é super de boa, mas é o super ruim. Pra ele tudo vai dar certo, e já ouvi da boca dele que ele enxerga o trabalho de pesquisa acadêmica como uma "grande brincadeira", que ele testa as coisas e vai vendo o que funciona. O que é ótimo pra ele... mas não sou eu que tô no começo da carreira, sem salário e sem concurso.

Dito isso, escrever essa dissertação está sendo um dos trabalhos de Hércules. Preciso lidar com a teoria nova, sem saber a técnica direito para além de "seguir instruções" e, ao mesmo tempo da escrita, estou fazendo experimentos pois não tenho dados suficientes para responder minha pergunta de pesquisa. Infelizmente, aprendi a lidar com a inação do meu orientador tarde de mais. Até mesmo para lidar com a burocracia, comigo explicando como ele deveria agir, ele fez errado, mandando o arquivo errado para a banca e esquecendo de botar as informações cruciais na minha pré-defesa para a secretaria (no meu programa, você qualifica duas vezes).

Nisso, tenho que cuidar de mim e ainda vigiar as coisas que ele faz em nome do projeto e sinceramente isso tá me matando.

Essas duas semanas foram extremamente cansativas e estressantes. E isso tem ocupado tanto a minha mente que eu nem considerei situações tão lindas que me aconteceram. Tive alguns encontros com a natureza esses dias, bem mais do que me ocorre naturalmente, e, somente agora que enviei o arquivo certo e corrigido para a banca avaliadora, que estou pensando.

O plasma

O material que eu trabalho é nitreto de cromo, e eu deposito no meu substrato via RF-Sputtering. Compartilho o equipamento com uma IC que usa um alvo diferente. Um dia eu esqueci de trocar o alvo de Teflon, que ela usa, para o de Cromo, e fui limpar; procedimento padrão.

Quando vi a cor do plasma já me atentei: não era roxinho, estava mais pálido, típico do teflon. Mas... era tão... bonito.

Plasma de Teflon

Fiquei olhando um tempo mesmo que eu tenha errado o experimento e teria que começar de novo. Realmente, gás ionizado é algo muito lindo de se ver...

Almoço com visita

Essas semanas eu também fui almoçar com um amigo - que vocês até sabem quem é, o do casal que vai e volta. E enquanto comida fui visitado por um passarinho.

Passarin

Não sei que passarin era. Mas ele ficou ali em volta. Andando sem voar. Durante todo meu almoço. E eu juro pra vocês que ele só voou quando a gente se levantou para ir embora. Eu fiquei olhandinho pra ele o tempo inteiro. Tão fofis.

Acompanhado da coruja

Um dia dessas semanas eu fiquei até 3h30 da manhã fazendo experimento. Só nesse dia, a interface dielétrica do equipamento de impedância morreu na minha frente e eu já achei que tinha fodido o trabalho de todo mundo do grupo, mesmo sabendo que não tinha feito nada fora do padrão. Graças a deus só foi o fuzível; mas meus batimentos foram a 110 bpm (são normalmente 68 bpm).

Voltando pra casa caminhando (uber estava caríssimo), estressado com isso e com a máquina querendo dar uma de não reprodutível, caminhando na calçada me deparei com isso:

Corujinha

Eu também não sei a espécie, mas a cabeça dela foi girando, me acompanhando enquanto eu atravessava a placa em que ela estava. Acho que fiquei uns bons minutos calado, no friozinho confortável, só olhando pra ela, e ela me olhando de volta. Eventualmente eu tive que ir pois apesar de maranhense tbm sou medroso e não tava a fim de ser assaltado nesse dia.

Gatão

Gatão laranja

Um dia voltando pra casa de pé, escuto um miado, parecia me chamar. Vejo esse gatão deitado no buraco do negócio de energia de uma casa, olhando pra mim. Respondi "o que é?", ele miou de volta. Nunca descobri o que ele queria falar pra mim. Mas o olhar dele não me foi tão amigável; talvez era um puxão de orelha hehe. Tirei uma foto de segui viagem.

Macaquinhos!

Mamacos

Um dia quando fui transitar entre laboratórios encontrei uma família de macaquinhos na muretinha que fica na entrada do prédio que eu trabalho. Não preciso dizer nada né. Olha a carinha desse desgraçado.

Nesse dia, o experimento de deslize que faço (jogo lub e vejo se uma gota de água desliza a baixos ângulos) foi falho. E eu tava muito borocrochô, e esse mamaquinho fez eu esquecer por uns breves segundos a tristeza que estava sentindo.

Ê semana

Não acredito em carma nem naquela bobajada de equilíbrio de "energia". Mas sei lá... eu quase nunca passo por isso e, de repente, são francisco resolve me enviar esses animais que prendem minha atenção e fazem eu esquecer, por um breve momento, todas as preocupações, ansiedades e tristezas que estou sentindo. Todos pareciam, de certa forma, me acompanhar. Fora o plasma, ele só era bonito mesmo.

Claro, e óbvio, é um comportamento normal desses bichos, e eu só senti isso pq eu to sensível. Mas é legal pensar né heheh.

Para além de animais:

Hoje indo pro lab completamente maluco com esses erros do meu orientador, eu vi uma criança sozinha, voltando da escola, e do mais exato nada, ele fez o símbolo do meme 67. E eu me escaralhei de rir.

Tenho rido bastante lendo a TL do masto, que tem me ajudado bastante a desestressar qnd chego em casa.

Mandar Tiktok pros meus amigos também, admito, está sendo um ótimo meio. Sempre me escaralho de rir com vídeos trash nordestinos ou outras besteiras.


Infelizmente, sempre que penso no saldo do dia, penso nas coisas ruins. Mas olha, essas pequenas coisas que aconteceram foram o suficiente para eu não cometer um crime.

Muito obrigado mesmo aos envolvidos.