Olhar para os "dados" é olhar diretamente para o mundo! Ou será que não?
Frequentemente vejo, em discussões, sobre política ou não, aquele famoso argumento: "Meu amor, os dados estão aí para mostrar! Basta olhar". E eu vejo isso partindo de várias posições e alinhamentos teóricos e, convenhamos né, é um baita de um argumento. Mas, será se os dados realmente são reflexo único dos fenômenos?
Nesse texto eu vou escrever sobre fenômenos naturais, i.e., da natureza, que é o que tenho domínio. Sintam-se livre para dialogar com esse texto (e comigo) em suas respectivas interpretações, aliás.
Como é meu blog, vou apresentar logo minha posição (e quem quiser que defenda a sua como resposta/crítica!): Os dados observáveis não dizem nada, sozinhos, sobre o comportamento natural.
Nessas minhas andanças pela física, e admito que principalmente é algo mais presente nas ciências aplicadas, essa interpretação meio empírica (?) radical de que os dados são a verdadeira verdade e eles refletem sozinhos o fenômeno estudado é muito presente. Basta olhar.
Seja, por exemplo, um experimento realizado sobre um objeto , a fim de determinar a existência de um fenômeno/propriedade por meio de um resultado experimental (dado) . atua em e produz ; então, por , infere-se a existência de . , o dado, ocupa então um papel central na determinação de uma fenômeno/propriedade , ele, sozinho é capaz de determinar a presença ou não de .
Mas, eu não concordo com isso (ao menos, não mais). Pois, em meio a todo esse budejo lógico, não se fala, pra mim, o mais fundamental que : como que é interpretado.
Eu vou dar o mesmo exemplo de sempre, então perdão.
Considerem, por exemplo, que sabemos que se soltar do repouso () uma maçã (), ela cai para o chão (), por efeito da gravidade (). Se, e somente se, isso acontece, significa que a gravidade existe. Mas vocês percebem que isso nos dá apenas a informação de que o objeto cai para o chão. A natureza da gravidade, ou melhor, qual a natureza física que está produzindo essa aceleração, não nos é informada.
Seu colega pode interpretar , nesse exemplo, dizendo que é devido a uma propriedade intrínseca das massas dos corpos, que causa essa aceleração. Você, por outro lado, pode dizer que não; que essa aceleração é causada, na verdade, por uma conformação do tensor de espaço-tempo, que define sua geometria, e gradientes desse tecido causam nos corpos uma aceleração.
Aí você leitor pensa "então qual é a verdade?" e, kkkkk, ohh siow...
Primeiro, temos que discutir se a "ciência" realmente é um meio eficaz para descoberta da verdade. Beleza, vamos supor que concordamos que sim. Depois, temos que definir se ela é capaz de definir a Verdade, com V maiúsculo. E então, definir critérios de "verdade": é unicamente a experiência sensível? são as estruturas teóricas-matemáticas que ditam? é a união entre a experiência sensível e as estruturas modelo? são, na verdade, plurais de verdade? ou, talvez, não exista verdade nenhuma em primeiro lugar?
É meio difícil responder essa pergunta e é algo que a galera da filosofia briga até hoje. Acredito que por isso que os cientistas são de momentos: os normais e os de revolução. Trabalham dentro de um paradigma, o que a comunidade como um todo aceitou como verdade (verdade de v minúsculo). E é babado...
Como vimos, dado , podemos interpretá-lo de diferentes formas, em outras palavras, com diferentes teorias. Como definir o paradigma? É aquela que tem menos asserções teóricas? ou aquela que tem mais? A que tem menos mecanismos e estruturas, ou a que tem mais? É a mais simples? A mais complexa? É..., bem vindo a briga.
O que eu queria dizer com esse texto é termos cuidado na hora de usar "o dado está aí" como argumento em discussão. Dado por dado não diz nada, sozinho, sobre o mundo, precisa-se interpretá-lo.
Eu tenho pra mim que a própria coleta do dado já não é... neutra. Recomendo que toda vez que nos depararmos com um gráfico, não olhar primeiro os eixos ou as curvas ou os números, mas quem coletou; quando coletou, e como coletou. Depois, aí sim, interpretar os dados daquele gráfico.
Não existe método científico neutro; não existe experimento neutro; não existe dados neutros. O que existe são fenômenos naturais, e independente de nós; cabe a nós interpretá-los.